Água, luz e produto: o custo do banho que ninguém soma
Como calcular a água, a luz e o produto de cada banho usando a sua própria conta, com as fórmulas e um jeito de medir em uma tarde.
Água, luz e produto: o custo do banho que ninguém soma
A conta de luz de janeiro chega quase o dobro da de junho. O dono olha, resmunga alguma coisa sobre o ar-condicionado da recepção, paga e esquece. Meses depois a conta de água dá um salto parecido e a explicação vira "deve ter vazamento em algum lugar".
Às vezes é vazamento mesmo. Na maioria das vezes não é. O serviço cresceu, e água e luz cresceram junto, porque são os dois únicos custos da loja que sobem toda vez que entra mais um cachorro no box.
Pergunte a qualquer dono quanto custa o shampoo de um banho de porte grande. Ele arrisca um número. Pergunte quanto custa a água e a luz do mesmo banho e vem o silêncio, ou vem um "ah, isso aí é pouco".
É pouco por banho. Não é pouco no fim do mês. Quatrocentos banhos multiplicam qualquer centavo até ele virar salário.
Este texto é a conta. Não a conta média do mercado, que não serve pra nada, porque tarifa de água e de energia muda de estado, de cidade e de concessionária. É a sua conta, tirada da sua fatura, com uma tarde de trabalho e uma calculadora.
Por que esse custo some do controle
Três coisas conspiram, e cada uma esconde um pedaço.
A fatura é da loja inteira, nunca do box. Vem um valor só, misturando geladeira do fundo, luz da vitrine, máquina de lavar toalha e soprador. Separar dá trabalho, e trabalho adiado vira "custo fixo", aquela linha genérica do fim do mês onde o dinheiro desaparece.
Não existe nota por banho. A ração sai da loja com código de barras. A água sai pelo ralo. O que não passa pelo caixa não entra na cabeça de ninguém.
O valor unitário é ridículo de pequeno. Quando você descobre que a água de um banho custa centavos, a vontade é fechar a planilha e cuidar de coisa mais séria. Só que o número que importa nunca é o do banho. É o do mês, e é principalmente o quanto ele cresce quando a agenda enche.
Tem ainda um efeito perverso. Como esse custo não é medido, ele nunca entra no reajuste de preço. A loja repassa aumento de shampoo, repassa aumento de salário, e deixa água e energia de fora, ano após ano, mesmo com as duas subindo acima da inflação em boa parte do país.
Ache o seu preço da água, que não é o do vizinho
Pegue a fatura de água de um mês qualquer. Você precisa de dois números que estão nela: o consumo em metros cúbicos e o valor total pago.
Um metro cúbico é mil litros. Guarde isso, porque é a conversão que resolve tudo.
Agora divida o valor total pelo consumo em m³. O resultado é o seu custo real por metro cúbico, já com esgoto, taxas e tudo que a concessionária empilha. É melhor do que olhar a tabela de tarifa no site dela, porque a tabela mostra o preço da água limpa e esquece o resto.
Repare especialmente na linha do esgoto. Muitas concessionárias cobram esgoto como um percentual do que você consumiu de água, e em várias cidades esse percentual é alto. Se você olhar só a tarifa da água, pode estar enxergando metade da conta. A linha vem separada na fatura, dá pra conferir em dez segundos.
Um aviso que vale dinheiro: se a sua loja tem hidrômetro próprio, esse cálculo é limpo. Se você está num prédio com rateio ou paga um valor fechado no aluguel, o número não é confiável, e a saída é medir o consumo direto no hidrômetro ou combinar com o proprietário uma leitura separada.
Quantos litros vai num banho
Aqui não tem tabela pra copiar. O consumo depende da pressão da sua torneira, do tipo de esguicho, do porte do animal e, acima de tudo, de um hábito: deixar a mangueira aberta enquanto ensaboa.
Dois jeitos de medir, os dois fáceis.
O jeito do balde. Feche a saída da banheira, dê o banho normal, e no fim tire a água com um balde de medida conhecida, contando quantos baldes saíram. Funciona bem em banheira, mal em box com ralo aberto.
O jeito do hidrômetro, que é melhor. Peça pra ninguém usar água em nenhum outro ponto da loja por vinte minutos. Anote a leitura do hidrômetro, dê um banho, anote de novo. No hidrômetro brasileiro comum, os dígitos pretos contam metros cúbicos e os vermelhos contam litros. A diferença entre as duas leituras é exatamente o que aquele banho gastou.
Faça isso com três animais diferentes: um pequeno de pelo curto, um médio e um grande de pelo denso. Você vai ter um piso, um teto e uma noção do que está no meio. Não precisa de mais precisão que isso.
Enquanto está medindo, meça também o desperdício. Cronometre quanto tempo a mangueira fica correndo sem estar em cima do animal. Esse é o único item desta lista inteira que você consegue cortar sem investir um centavo, e costuma ser o maior.
A luz: o vilão é o secador, não a lâmpada
Quase todo mundo pensa em luz como iluminação. No banho e tosa, iluminação é detalhe. O que pesa é aquecer água e secar pelo.
Para descobrir quanto cada equipamento consome, você precisa de um número que está escrito nele: a potência, em watts (W). Está na etiqueta atrás, embaixo, ou no manual. A fórmula é uma só:
potência em watts ÷ 1.000 × horas de uso = kWh consumidos
Um aparelho de 2.000 W ligado por meia hora gasta 1 kWh. Um de 1.000 W ligado por uma hora gasta o mesmo 1 kWh. É só isso.
Falta o preço do kWh. E aqui vale o mesmo truque da água: em vez de procurar a tarifa da distribuidora, pegue o valor total da conta de luz e divida pelo consumo em kWh do mês. O resultado já vem com bandeira tarifária, ICMS e contribuição de iluminação pública dentro. É o número que sai do seu bolso, não o número da tabela.
Vale lembrar que a bandeira tarifária muda de mês pra mês por decisão da ANEEL, e ela pode mexer bastante nessa média. Se você fizer a conta num mês de bandeira vermelha, vai enxergar o pior cenário. Não é errado planejar por ele.
| Equipamento | Onde achar o consumo | O que costuma pesar |
|---|---|---|
| Soprador | Etiqueta, em watts | Muito uso por dia, potência alta, mas encurta o tempo total |
| Secador de bancada | Etiqueta, em watts | Fica ligado o dobro do tempo do soprador em pelo denso |
| Aquecimento elétrico da água | Etiqueta do chuveiro ou do aquecedor | Costuma ser o maior de todos, e ninguém desconfia |
| Aquecimento a gás | Contar banhos por botijão | Não aparece na conta de luz, aparece no caixa |
| Máquina de lavar toalha | Etiqueta, em watts, por ciclo | Toalha suja é insumo do banho, mesmo lavando fora do box |
| Máquina de tosa | Etiqueta, em watts | Consumo pequeno, custo real está na lâmina e na afiação |
Repare na terceira linha. Se você esquenta água com chuveiro elétrico ou torneira elétrica, esse item sozinho pode valer mais que o resto da lista junto. Vale medir antes de trocar qualquer coisa, porque é onde uma mudança de equipamento se paga rápido.
E repare também numa contradição útil. O soprador tem potência alta e parece caro. Mas ele derruba o tempo de secagem, e tempo de secagem é onde mora o custo de gente, que é muito maior que o custo de energia. Trocar secagem lenta por secagem potente quase sempre sai mais barato, mesmo puxando mais kWh.
O produto, que é a parte que você já compra com nota
Shampoo, condicionador, perfume, algodão, laço. Esse pedaço é o mais fácil de calcular, porque tem nota fiscal, preço e fornecedor.
O caminho curto: pegue o gasto do mês com material de banho e tosa e divida pelo número de atendimentos do mês. Sai uma média por pet, imperfeita, mas honesta. Se quiser refinar, o jeito certo é padronizar a dose e medir por porte, e isso está destrinchado em controle de shampoo e insumo no banho e tosa.
Uma armadilha que aparece muito: shampoo concentrado. A diluição indicada vem no rótulo (1 para 4, 1 para 10, o que for). Se a equipe usa puro por hábito, o custo por banho vai a um múltiplo do que devia ser, e o produto ainda enxágua pior. Confira o rótulo do que você compra hoje, não o que você lembra de ter comprado.
Juntando tudo: a conta de um banho
Agora um exemplo. Os números abaixo são redondos de propósito, inventados pra a conta ficar visível. Não são dado de mercado e não servem como referência de preço. Os seus vão ser outros.
Exemplo: conta de água de R$ 400 com 40 m³ consumidos. Isso dá R$ 10 por m³, ou seja, R$ 0,01 por litro. Conta de luz de R$ 900 com 900 kWh, ou seja, R$ 1,00 por kWh.
| Item | Medida do exemplo | Conta | Custo |
|---|---|---|---|
| Água | 60 litros | 60 × R$ 0,01 | R$ 0,60 |
| Secagem | 2.000 W por 30 min = 1 kWh | 1 × R$ 1,00 | R$ 1,00 |
| Aquecimento da água | 4.000 W por 15 min = 1 kWh | 1 × R$ 1,00 | R$ 1,00 |
| Produto | média do mês | valor fechado | R$ 3,00 |
| Total do exemplo | R$ 5,60 |
Cinco reais e sessenta. Parece pouco, e é pouco.
Agora multiplique por 400 banhos no mês e dá R$ 2.240. É aluguel de loja em muita cidade. E esse valor não é fixo: ele cresce junto com a agenda, todo mês, sem ninguém decidir nada.
Foi por isso que valeu a tarde de trabalho. Não pra descobrir que o banho custa R$ 5,60 de utilidade. Pra saber que crescer 30% no serviço traz junto 30% a mais dessa conta, e que isso precisa estar dentro do preço antes de você comemorar o movimento.
Erros comuns
Copiar o custo de água e luz de um post de blog. Inclusive deste. Tarifa muda de concessionária pra concessionária, e o esgoto sozinho já dobra a diferença entre duas cidades.
Usar a tarifa do site da companhia em vez da divisão da própria fatura. A tarifa publicada é o preço da água ou do kWh. A sua fatura tem mais coisa dentro, e é ela que você paga.
Esquecer a lavagem de toalha. Toalha é consumo direto do banho. Água, sabão, energia e o tempo de quem estende. Se a lavanderia é terceirizada, existe uma nota mensal que ninguém amarrou ao serviço.
Tratar o soprador como vilão porque tem potência alta. O tempo de gente custa mais que o kWh. Secar rápido costuma ser mais barato, não mais caro.
Deixar a mangueira correndo durante a ensaboada. É a única linha desta conta que você corta de graça, hoje, e ela costuma ser grande.
Medir uma vez e nunca mais. Tarifa reajusta todo ano, bandeira muda todo mês, e o mix de portes da sua loja muda com o tempo. Refazer a conta uma vez por ano leva vinte minutos.
Perguntas frequentes
Quantos litros de água gasta um banho de cachorro? Não existe número único, e quem publica um está chutando. Depende da pressão, do esguicho, do porte e do hábito da equipe. Mede em uma tarde pelo hidrômetro com três animais de portes diferentes, e você fica com o seu número, que é o único que serve.
Qual é o custo médio de água e luz por banho no Brasil? A gente não tem esse dado e não vai inventar um. As tarifas variam por concessionária e por faixa de consumo, e o esgoto muda a conta de cidade pra cidade. A fórmula deste texto resolve pro seu caso em menos de uma hora.
Vale a pena trocar chuveiro elétrico por aquecedor a gás? Pode valer, e a conta é possível de fazer antes: calcule o kWh que o elétrico consome hoje pelo método deste texto e compare com quantos banhos você faz por botijão depois de instalado. Peça essa estimativa a quem for vender o equipamento e confira com a sua medição, não com a dele.
Esse custo justifica aumentar o preço do banho? Sozinho, quase nunca. Ele é pequeno demais por atendimento. O que ele faz é entrar na conta completa do serviço, junto com hora de profissional e custo fixo, e aí sim mexer no preço. O caminho completo dessa conta está em quanto cobrar no banho e tosa.
Dá pra separar a energia do box do resto da loja? Com medidor individual em cada tomada, sim, e existe equipamento barato pra isso. Mas raramente compensa. A estimativa por potência e tempo de uso erra pouco e custa uma tarde.
Resumo do que fazer nesta semana
- Pegue a última fatura de água, divida o valor total pelos m³ e anote o seu custo por litro.
- Pegue a última conta de luz, divida o valor total pelos kWh e anote o seu custo por kWh.
- Meça no hidrômetro o consumo de três banhos, de portes e pelagens diferentes.
- Anote a potência em watts do soprador, do secador e do aquecimento de água, e quanto tempo cada um fica ligado por atendimento.
- Monte a soma de um banho pequeno e de um grande, multiplique pela quantidade de banhos do mês e coloque esse valor na sua planilha de custo, com nome próprio.
Você não precisa de precisão de engenheiro. Precisa sair do "isso aí é pouco" e chegar num número escrito, que possa ser conferido daqui a um ano.
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No BioVinte2, cada serviço tem ficha de insumo com baixa automática no estoque, e o Financeiro separa o que entrou por banho e tosa do que entrou por venda de produto, pra essa conta parar de morar num caderno. Conheça os planos.