Quanto custa um banho de verdade: a conta linha por linha
A conta do banho linha por linha: produto, água, luz, mão de obra e tempo de bancada, com exemplo ilustrativo e o custo por atendimento.
Quanto custa um banho de verdade: a conta linha por linha
Pergunte no balcão quanto custa um banho e você vai ouvir uma resposta rápida: "uns dez reais de produto". Pergunte de novo, incluindo a água que correu na mangueira, a energia do soprador, o salário de quem estava com a mão no cachorro e a hora em que o box ficou ocupado, e a resposta vira silêncio.
Esse silêncio é caro. Ele é o motivo de lojas cheias fecharem o mês no zero, de promoção de banho que parece inteligente e come a margem inteira, e de tabela de preço que não muda há três anos porque ninguém sabe dizer se pode ou se deve.
O banho é o serviço mais vendido do pet shop brasileiro e é, na maioria das lojas, o produto com o custo menos conhecido da casa. A ração tem preço de compra na nota. O banho não tem nota de custo nenhuma, e por isso ele é tratado como se o custo fosse só o shampoo.
Vamos montar a conta. Ela tem sete linhas e um exemplo do começo ao fim, com valores inventados só para mostrar o caminho.
A regra que organiza tudo: custo por minuto de box
Antes das linhas, a ideia central. Banho não custa por banho. Custa por minuto de box ocupado.
Dois banhos com o mesmo preço de tabela, um de 45 minutos e outro de 90, não são o mesmo negócio. O segundo consome o dobro de mão de obra, o dobro de rateio de estrutura e ocupa o lugar de outro pet que poderia estar ali.
Por isso a primeira medição não é de dinheiro, é de tempo. Cronometre dez atendimentos, misturando porte e pelagem, do momento em que o pet entra no box até o box estar limpo para o próximo. Sem esse número, a conta toda fica no chute.
Linha 1: produto
Aqui o método é simples e chato: custo por mililitro vezes a dose padrão.
Pegue o preço do galão e divida pelo volume. Galão de 5 litros custa X? Então o mililitro custa X dividido por 5.000. Faça isso para shampoo, condicionador e qualquer produto que sai em dose.
Depois padronize a dose por porte, com dosadora na bancada. O passo a passo detalhado dessa parte está em controle de shampoo e insumo no banho e tosa.
Some ainda o que sai por unidade: algodão, produto de orelha, perfume, laço. Individualmente é centavo. Junto, vira uma linha de verdade.
Linha 2: água
Quase ninguém mede, e dá para medir em dez minutos.
Pegue um balde de volume conhecido e cronometre quanto tempo a mangueira leva para enchê-lo. Isso te dá litros por minuto. Depois cronometre o tempo de mangueira aberta em três banhos diferentes. Litros por minuto vezes minutos de mangueira, e você tem os litros por banho.
Se preferir, tem o jeito ainda mais direto: leia o hidrômetro antes e depois de um banho, com o resto da loja parado.
O preço vem da sua conta de água, e preste atenção neste detalhe que engana muita gente: na maior parte dos municípios o esgoto é cobrado como um percentual do consumo de água. Ou seja, cada litro que entra é cobrado duas vezes. Use o valor total da conta dividido pelos metros cúbicos consumidos, que já resolve isso sozinho.
Um metro cúbico é mil litros. Litros por banho vezes a tarifa por litro, e a linha está pronta.
Linha 3: energia
A informação que você precisa está na etiqueta do equipamento, em watts.
A conta é: potência em watts dividida por mil, vezes as horas de uso, dá o consumo em kWh. Um aparelho de 2.000 W ligado por meia hora consome 1 kWh.
Faça isso para o soprador e para o secador, que são os dois que puxam energia de verdade no banho. Máquina de tosa e iluminação do box são pequenos o bastante para ficarem no custo fixo.
A tarifa também sai da sua conta de luz, e o jeito mais honesto é dividir o valor total pago pelo consumo em kWh do mês. Assim você já inclui imposto e bandeira sem precisar entender a estrutura da fatura.
E a bandeira muda. A ANEEL manteve a bandeira amarela em setembro de 2026, com cobrança adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos, segundo a Agência Gov. Não é um valor grande por banho, mas serve de lembrete: a tarifa que você usou no ano passado já não é a de hoje.
Linha 4: mão de obra
É a maior linha da conta e a que mais gente subestima.
Não use o salário. Use o custo total daquele funcionário, com encargos, férias, décimo terceiro e o que mais a folha carrega. Esse número quem te dá é a sua contabilidade, e vale pedir, porque ele costuma ser bem maior do que o salário que aparece no contracheque.
Divida esse custo total pelas horas trabalhadas no mês e você tem o custo por hora. Multiplique pelo tempo de bancada que você cronometrou.
Se houver comissão, ela entra separada, porque incide sobre o preço de venda e não sobre a hora (comissão de banhista e tosador).
E se quem dá banho é você, o custo não é zero. Coloque o valor da sua hora. Dono que trabalha de graça acha que a loja dá lucro quando ela está pagando um salário disfarçado.
Linha 5: a fatia do custo fixo
Aluguel, energia da loja fora do box, internet, sistema, contador, limpeza, manutenção de equipamento, seguro. Esse custo existe no dia em que nenhum pet entra.
Em loja que também vende produto, não faz sentido jogar o custo fixo inteiro em cima do serviço. Separe uma fatia, por área ocupada ou por participação no faturamento, e use só ela. É uma aproximação, e aproximação explicada vale mais que precisão fingida.
Aí vem a parte que dói. Você pode dividir essa fatia pelas horas em que a loja fica aberta ou pelas horas de bancada que você realmente vendeu no mês. O primeiro jeito é mais confortável. O segundo é o real, porque box parado não paga aluguel.
Linha 6 e linha 7: as que somem
Duas linhas quase sempre esquecidas, e as duas saem do seu bolso:
Taxa da maquininha. Se o cliente paga no cartão, uma parte do preço nunca chega na sua conta. Débito, crédito à vista e parcelado têm taxas diferentes (taxa de maquininha no pet shop).
Imposto sobre o serviço. Depende do regime e do anexo do Simples Nacional em que a sua empresa se enquadra, e a primeira faixa do Anexo III começa em 6%. Qual anexo vale para você é pergunta para a contabilidade, não para a internet.
O exemplo trabalhado
Agora a conta inteira, com números ilustrativos. Eles não são preço de mercado, não são média de nada e não servem para copiar. São só um exemplo completo para você montar o seu com os seus números.
Cenário do exemplo: pet de porte médio, pelo longo, 70 minutos de bancada, preço de tabela de R$ 80,00, pagamento no cartão de crédito.
| Linha | Como foi calculado (exemplo) | Valor |
|---|---|---|
| Shampoo | 30 ml a R$ 0,04 o ml | R$ 1,20 |
| Condicionador | 20 ml a R$ 0,05 o ml | R$ 1,00 |
| Perfume, laço, algodão, produto de orelha | soma estimada por atendimento | R$ 1,50 |
| Água e esgoto | 60 litros, tarifa de R$ 25,00 o metro cúbico | R$ 1,50 |
| Energia | 1,16 kWh entre soprador e secador, a R$ 0,95 o kWh | R$ 1,10 |
| Mão de obra | custo total de R$ 3.000 no mês, 176 horas, 70 minutos | R$ 19,89 |
| Fatia do custo fixo | R$ 4.800 no mês, 260 horas abertas, 70 minutos | R$ 21,54 |
| Taxa da maquininha | 3% sobre R$ 80,00 | R$ 2,40 |
| Imposto | 6% sobre R$ 80,00 | R$ 4,80 |
| Custo total do atendimento | R$ 54,93 | |
| Margem sobre R$ 80,00 | R$ 25,07 |
Repare no que a tabela mostra. Produto, água e energia juntos somam R$ 6,30, pouco mais de 11% do custo. Mão de obra e estrutura somam R$ 41,43, quase 76%.
Isso muda a conversa inteira. A briga por desconto de shampoo com o fornecedor mexe em 2% do seu custo. O tempo de bancada mexe em três quartos dele.
O mesmo banho, três tempos diferentes
Mesma loja, mesmo preço de R$ 80,00, mesmos produtos. Só muda o tempo de bancada. Valores ilustrativos, seguindo o exemplo acima.
| Tempo de bancada | Mão de obra | Fatia do fixo | Custo total | Margem |
|---|---|---|---|---|
| 45 minutos | R$ 12,79 | R$ 13,85 | R$ 40,14 | R$ 39,86 |
| 70 minutos | R$ 19,89 | R$ 21,54 | R$ 54,93 | R$ 25,07 |
| 90 minutos | R$ 25,58 | R$ 27,69 | R$ 66,77 | R$ 13,23 |
O pet que demora o dobro não rende metade. Rende um terço.
É por isso que preço único para todo cachorro é o erro mais caro do setor, e por isso o que define a sua tabela é tempo e pelagem, não só porte (quanto cobrar no banho e tosa).
O buraco da hora vazia
Agora a versão desconfortável da mesma conta.
No exemplo acima, o custo fixo foi dividido por 260 horas de loja aberta. Só que a loja não vende banho em todas as horas em que está aberta. Suponha que, no mês, a bancada tenha vendido 150 horas de serviço de verdade.
Dividindo os mesmos R$ 4.800 por 150 horas, a hora de bancada passa a custar R$ 32,00. No banho de 70 minutos, a fatia do fixo sobe de R$ 21,54 para R$ 37,33, o custo total vai para R$ 70,72 e a margem despenca para R$ 9,28.
Mesmo preço. Mesmo trabalho. Mesmo shampoo. O que mudou foi a quantidade de horas ociosas que aquele banho precisa sustentar.
Essa é a conta que explica por que encher a terça-feira vale mais que aumentar o preço do sábado, e por que faltar cliente marcado machuca tanto (cliente que marca e não aparece).
Erros comuns
Contar só o shampoo. É a linha menor da conta e a única que a maioria das lojas conhece.
Usar o salário no lugar do custo do funcionário. O custo real inclui encargos e provisões. Peça o número para a sua contabilidade.
Ignorar taxa de cartão e imposto. São dois pedaços do preço que nunca entram na sua conta bancária, e juntos costumam passar de 8% do valor da venda.
Ratear o custo fixo por hora aberta e achar que está tudo certo. Enquanto o box tem hora vazia, o custo real por atendimento é maior que o da conta confortável.
Atualizar a conta uma vez e nunca mais. Preço de galão sobe, salário sobe, energia muda de bandeira. Conta de custo tem validade, mais ou menos de seis meses.
Achar que descobrir o custo resolve o preço. Custo é piso, não preço. O que você cobra ainda depende do que a sua região paga e do que a sua loja entrega.
Perguntas frequentes
Preciso fazer essa conta para cada porte? No mínimo três: pequeno, médio e grande. O ideal é separar também por pelagem, porque pelo longo muda mais o tempo do que o porte muda.
Qual margem é saudável no banho? Não existe um número universal, e quem te der um sem olhar a sua estrutura está chutando. O que dá para afirmar é o caminho: calcule o custo com todas as sete linhas, some a margem que paga a reposição de equipamento e o seu mês fraco, e compare com o que a sua região pratica.
Meu box fica parado de manhã. Devo baixar o preço nesse horário? Preço menor em horário fraco funciona quando ele traz cliente novo em vez de mudar o horário de quem já pagava o preço cheio. Teste com um público específico e com nome próprio, não com desconto geral.
E o custo do pet que dá trabalho? Ele aparece sozinho quando você mede tempo. Pet que ocupa 90 minutos num preço de 45 minutos é prejuízo silencioso. A saída é ter linha de manejo especial ou desembolo na tabela, combinada antes com o cliente.
Faz sentido calcular isso se eu mesmo dou os banhos? Faz ainda mais. Se você não colocar a sua hora na conta, a loja parece lucrativa enquanto na verdade está consumindo o seu trabalho de graça.
Resumo do que fazer nesta semana
- Cronometre dez atendimentos, do box ocupado até o box limpo, e separe por porte e pelagem.
- Calcule o custo por mililitro dos três produtos que você mais usa e padronize a dose.
- Meça a água com balde e cronômetro, e pegue a tarifa do metro cúbico na sua conta.
- Peça à sua contabilidade o custo total mensal de cada pessoa da bancada e ache o custo por hora.
- Monte a tabela deste post com os seus números e compare o resultado com o preço que você cobra hoje.
A conta não é para você economizar shampoo. É para parar de vender um serviço cujo custo você não conhece, e para descobrir que o tempo de bancada, e não o produto, é onde mora o seu dinheiro.
Referências
- ANEEL, bandeira tarifária de setembro de 2026 mantida em amarela, com adicional de R$ 1,885 a cada 100 kWh, divulgada pela Agência Gov em 31/08/2026.
- Lei Complementar nº 123/2006, tabelas do Simples Nacional (Anexo III, primeira faixa em 6%). O anexo aplicável a cada empresa deve ser confirmado com a contabilidade.
- Os demais valores do exemplo são ilustrativos e não representam preço de mercado nem média apurada.
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A ficha de consumo do BioVinte2 registra o insumo usado em cada atendimento e já dá baixa no estoque, e o Financeiro mostra quanto cada serviço rendeu no mês, para a margem por atendimento sair da estimativa e virar número. Conheça os planos.