Leva e traz: quanto cobrar sem dar prejuízo

Leva e traz no pet shop: como calcular o custo real da corrida, os modelos de cobrança por bairro ou por km e as regras do CTB.

Leva e traz: quanto cobrar sem dar prejuízo

Começa sempre do mesmo jeito. Uma cliente boa, que vem há dois anos, comenta que teve um problema no trabalho e não vai conseguir buscar o cachorro. Você diz que passa lá e deixa.

Na semana seguinte ela pergunta se dá pra buscar também. Um mês depois, três clientes sabem que a loja busca. Seis meses depois existe um serviço inteiro funcionando na sua operação, sem preço, sem horário, sem regra e sem ninguém ter decidido criar.

O leva e traz é o serviço que mais nasce por acidente no pet shop. E é também o que mais come lucro em silêncio, porque o custo dele não aparece em lugar nenhum da sua conta.

A gasolina você enxerga. O resto, não.

O custo verdadeiro é a pessoa, não o carro

Se você já tentou fazer essa conta, provavelmente parou na gasolina, achou o valor baixinho e concluiu que dá pra cobrar pouco ou nada.

Só que a corrida não gasta só combustível. Ela gasta uma pessoa, por quarenta minutos, e essa pessoa estava dentro da loja fazendo alguma coisa que rendia dinheiro.

Aqui entra o ponto mais duro deste texto. Se a sua secagem é o gargalo do dia (e na maioria das lojas pequenas ela é), cada corrida de leva e traz custa um banho que não foi feito. Não o lucro do banho: o banho inteiro, porque a vaga da agenda não volta. Quem quiser conferir de qual recurso a sua loja depende, a conta está em quantos banhos por dia cabem na sua estrutura.

Então a fórmula do custo de uma corrida tem três pedaços:

O tempo da pessoa. Minutos totais fora da loja vezes o custo da hora dela, com encargos. Se quem sai é você, coloque o valor da sua hora do mesmo jeito. Dono dirigindo de graça é o jeito mais comum de uma loja parecer lucrativa sem ser.

O veículo. Combustível, manutenção, pneu, óleo, seguro e o desgaste. Um jeito honesto de chegar nisso sem estudo: some tudo que o veículo custou nos últimos doze meses, divida pelos quilômetros rodados no mesmo período, e você tem um custo por quilômetro que é seu e não é chute.

O risco. Esse não tem número, e é justamente por isso que ele precisa estar no preço. Animal na rua, sob sua responsabilidade, dentro de um carro, é uma exposição que o banho dentro da loja não tem.

Meça dez corridas antes de decidir qualquer preço

Aqui tem uma surpresa esperando quase todo mundo.

Anote, em dez corridas seguidas: a hora que a pessoa saiu da loja, a hora que chegou no endereço, quanto tempo esperou na porta, e a hora que voltou. Só isso, num papel preso na parede.

O que costuma aparecer é que o trânsito é a menor parte. O que come o tempo é a espera. O cliente que não desceu ainda. O porteiro que precisa ligar no apartamento. O elevador de serviço. A guia que sumiu. O cachorro que não quer entrar no carro. A conversa de cinco minutos na porta, que é ótima pro relacionamento e cara pra agenda.

Depois de dez corridas medidas, você vai ter dois números que ninguém tem: o tempo médio de uma corrida e o tempo da pior delas. O preço se monta com o primeiro. A regra de atendimento se monta com o segundo.

Os modelos de cobrança, e qual funciona melhor

Existem cinco formatos comuns. Nenhum é errado, mas eles falham em situações diferentes.

ModeloComo funcionaOnde funciona bemOnde dá problema
Valor fixoUma corrida, um preço, qualquer endereçoLoja de bairro, raio pequeno, começando agoraCliente longe vira prejuízo, cliente perto acha caro
Por bairroLista de bairros atendidos, preço em cada umA maioria das lojas de bairroExige manter a lista, e bairro grande varia muito por dentro
Por faixa de distânciaAté 3 km, até 6 km, até 10 kmCidade grande, com rota espalhadaDiscussão sobre o caminho, e alguém precisa medir o km
Grátis acima de um valorCompra ou serviço acima de X ganha o transportePromoção de período curtoDesconto vai para quem já viria, e o custo continua inteiro
Incluído no pacoteO leva e traz entra no pacote mensal de banhosCliente fiel, agenda previsívelSe não estiver no preço do pacote, é prejuízo com contrato

Duas opiniões, pra este texto não ficar em cima do muro.

Cobre por bairro, não por quilômetro. Bairro é a régua que o cliente entende sem discutir, e não abre espaço pra alguém argumentar que o caminho era mais curto por outra rua. Quilômetro é mais justo na teoria e mais chato no balcão.

Cobre por trecho, não por ida e volta fechada. Muito cliente precisa só de um lado: deixa o cachorro de manhã a caminho do trabalho e quer que você leve de volta. Se o seu único preço é ida e volta, ele paga o dobro do que usa e simplesmente para de pedir. Dois trechos, dois preços, e quem usa os dois paga os dois.

Sobre o "grátis", uma observação que vale o texto inteiro: transporte de graça não é gentileza barata. É o desconto mais caro que um pet shop pode dar, porque ele consome tempo de gente, que é o recurso mais escasso da loja. Se você quer oferecer sem cobrar, coloque dentro do pacote mensal e cobre no pacote.

As regras que valem na rua

Transportar animal de cliente muda a natureza do risco, e vale saber o que a lei diz antes de o problema acontecer.

O Código de Trânsito Brasileiro trata disso em três pontos, e o Portal do Trânsito resume assim:

A lei não obriga um equipamento específico, mas caixa de transporte presa pelo cinto, cinto adaptado e grade de separação são o que se recomenda. Para a sua loja, a leitura prática é direta: animal solto no banco é risco de multa, de acidente e de fuga na hora de abrir a porta.

Some a isso três regras de casa que evitam a maior parte dos problemas:

Autorização escrita do cliente pra transportar o animal, dizendo quem pode entregar e quem pode receber. Se você já usa ficha de entrada, esse campo entra ali. O assunto está destrinchado em termo de responsabilidade no banho e tosa.

Janela de horário, nunca horário exato. "Entre 8h e 10h" é uma promessa que você cumpre. "8h15" é uma promessa que o trânsito quebra por você.

Animal nenhum fica no carro parado esperando. Nem por dez minutos, nem com a janela aberta. Isso não é regra de trânsito, é a regra que impede uma tragédia num dia de calor.

O que fazer quando não tem ninguém em casa

Esse é o caso que quase toda loja esquece de precificar, e ele acontece com frequência.

A pessoa foi, o endereço estava certo, ninguém atendeu. Quarenta minutos, combustível e uma vaga de agenda queimados.

Crie uma taxa de retorno em vazio, escreva o valor, avise na hora de contratar o serviço e cobre. Não é para punir ninguém, é para o cliente ter motivo de estar em casa na janela combinada. Quem avisa com antecedência não paga nada, e isso também precisa estar escrito.

O mesmo vale para endereço fora da área. Se um bairro não está na sua lista, a resposta padrão é "aí eu não atendo" ou "aí é combinado na hora". Inventar um preço na frente do cliente para não dizer não é o começo de uma rota que você vai fazer por dois anos reclamando.

Erros comuns

Calcular só a gasolina. É a menor parte do custo e a única que todo mundo lembra. O caro é o tempo de gente.

Fazer de graça pro cliente antigo. A gentileza não fica com ele, ela vira expectativa de todo mundo que ficar sabendo. Preço com desconto declarado funciona. Preço zero, não.

Aceitar um bairro distante uma vez. Não existe uma vez. Existe precedente, e ele é difícil de desfazer sem desgastar a relação.

Prometer hora certa. Uma corrida atrasada empurra todas as seguintes, e o cliente das 10h fica sabendo do problema do cliente das 8h.

Mandar sair quem estava na secagem. Se a pessoa que sai é justo a que segurava o gargalo do dia, a corrida custa muito mais que o valor cobrado. Quando der, quem sai é quem tem a função menos disputada naquele turno.

Não registrar a corrida como serviço. Se ela entra como cortesia dentro do atendimento, nunca aparece em relatório nenhum, e um ano depois ninguém sabe quantas foram nem quanto custaram.

Perguntas frequentes

Quanto cobrar pelo leva e traz? O valor sai da sua conta, não de uma tabela. Some o tempo médio medido vezes o custo da hora de quem dirige, mais o custo por quilômetro do veículo, e coloque a margem que você coloca em qualquer serviço. Cobrar abaixo disso é vender transporte com dinheiro do banho.

Posso usar moto? Transportar animal na parte externa do veículo é infração grave pelo artigo 235 do CTB, o que já elimina a ideia de levar o cachorro no colo ou preso de qualquer jeito. Caixa apropriada e fixada é o mínimo, e para animal grande a moto simplesmente não serve.

Devo contratar motoboy ou aplicativo de entrega? Entrega de encomenda e transporte de animal vivo não são a mesma coisa, e a maior parte desses serviços não cobre animal. Se for terceirizar, faça com quem trabalha especificamente com transporte de pet e confira a responsabilidade em caso de acidente, por escrito.

Vale a pena oferecer o serviço? Vale quando ele desamarra a agenda. Cliente que não depende do próprio horário aceita deixar o animal na terça de manhã, e terça de manhã é exatamente o buraco que a maioria das lojas tem. Nesse caso o leva e traz não é só receita, é o que enche o dia fraco.

Cobro ida e volta ou por trecho? Por trecho, com preço de cada lado. É mais justo, vende mais e resolve o caso mais comum, que é o cliente que deixa o animal a caminho do trabalho e precisa só do retorno.

E se o animal se machucar ou fugir durante o transporte? A responsabilidade é sua, e é por isso que caixa, guia e peitoral não são opcionais, e que a porta do carro nunca se abre antes de a guia estar na mão. A gente é fornecedor de sistema, não escritório de advocacia: se você vai transportar animal com frequência, vale conversar com um advogado e com o seu seguro antes, não depois.

Resumo do que fazer nesta semana

  1. Anote dez corridas: saída, chegada, tempo de espera na porta e volta. Some e tire a média.
  2. Calcule o custo por quilômetro do seu veículo com os gastos dos últimos doze meses.
  3. Escolha o modelo de cobrança (fixo, por bairro ou por faixa de distância) e escreva a lista com preço de cada trecho.
  4. Defina por escrito a janela de horário, a taxa de retorno em vazio e a área que você não atende.
  5. Cadastre o leva e traz como serviço com preço próprio, para ele aparecer no relatório do mês em vez de sumir dentro do banho.

Transporte é serviço. Serviço tem preço, tem regra e tem limite geográfico. O que não tem nenhum dos três é favor, e favor não paga gasolina.

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No BioVinte2, o leva e traz entra como adicional do atendimento, e o Táxi Dog é um serviço próprio com preço que você configura de três jeitos: valor fixo, por bairro ou por faixa de quilômetro, com a opção de dobrar na ida e volta. Bairro fora da lista não recebe preço chutado, o sistema avisa que ali você não atende. Conheça os planos.